Marcelino Freire: Meu sonho é ser Roberto Carlos, não quero viver em redoma’

Revelação da nova geração de escritores brasileiros, o pernambucano Marcelino Freire lançou em julho de 2005 Contos Negreiros, um dos melhores livros de sua geração.

por Eduardo Horácio


Marcelino: "Nunca cansam de me perguntar: "Dessa geração, quem ficará?". Pergunta idiota. O que sei é que todo mundo vai ficar, sim, debaixo do chão um dia."  Fotos: César Ferreira

Revelação da nova geração de escritores brasileiros, o pernambucano Marcelino Freire lançou em julho de 2005 Contos Negreiros, um dos melhores livros de sua geração. Seu sonho, não esconde, é ser popular. Quer escrever para todos, o que não implica fazer concessões. De texto conciso, Marcelino tem o hábito de escrever e "sair de perto”. “Eu tenho muito essa perseguição, essa exigência com cada palavra, cada ponto, cada vírgula. Aprendi isso lendo o Graciliano Ramos. A secura da linguagem dele. Aprendi isso também com as poesias do João Cabral.” O autor nega influências da chamada literatura de deslocamento, vinda de fora. Sua formação começou com autores brasileiros. “Comecei lendo o Graciliano, o Rosa, o João Cabral. Tudo que era em uma outra língua, eu deixava para depois.” Na entrevista a seguir, concedida em dezembro de 2005, Marcelino também fala do humor de seus textos, explica o porquê de seus livros não terem pessoas bem-sucedidas e critica a revista Veja que, recentemente, o atacou com uma crítica, digamos, pouco argumentada.

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Eduardo Horácio - A Geração 90 existe mesmo ou a única coisa que as une são os anos 90 e ponto?
Marcelino Freire - Eu costumo dizer que se existe uma geração é a Geração da Teimosia. Escritores que surgiram nos anos 90 via editoras pequenas. Sem sobrenomes importantes, essas coisas. Cada um no seu parágrafo, etc. e tal. E que vieram colocando os pés no teclado. Esse “rótulo” geracional, criado e assumido pelo Nelson de Oliveira, não fez de ninguém escritor. Cada um chegou com seu trabalho. Foram os livros que se encontraram, entende? E a literatura brasileira estava precisando dessa sacudida de campo. Isso estava no ar. No Brasil inteiro havia gente produzindo linhas vigorosas. E ninguém ouvia falar dessa gente. O movimento surgido em São Paulo apenas fez reunir essa vontade coletiva. Mostrar que a literatura brasileira não parou em Rosa, em Clarice, em Osman Lins.

Independente de existir como unidade, que outros escritores brasileiros pós-anos 90 que você apontaria como bons?
Tem muita gente boa produzindo, sacudindo as linhas, escrevendo. Gosto muito do Santiago Nazarian, do Chico Mattoso, da Cecília Giannetti. Há pouco, fiquei fascinado com um escritor carioca de apenas 18 anos, o Botika, que escreveu “Uma Autobiografia de Lucas Frizzo”, publicada pela Azougue Editorial. Há uma carioca muito boa, idem, chamada Ana Paula Maia. E por aí vai. Não pára. Existe uma paulistana porreta, que vai estourar a qualquer momento, a Gabriela Kimura. Mas olhe: existe muita gente de gerações passadas que precisa ser redescoberta. Como o mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke, entre outros. É preciso ficar de olho. De olho no presente e para frente e para trás.

O sr. gosta quando é chamado de escritor pop?
Um dia eu brinquei dizendo que o meu sonho é ser Roberto Carlos. Quero muito isso. Que meus textos caiam na boca do povo. Não quero viver em redoma. Não quero esconderijos. Gosto de me comunicar, fazer o meu texto circular. O meu texto e o dos outros. Estive na Jornada Literária de Passo Fundo, que acontece em uma cidadezinha do Rio Grande do Sul, falando e lendo para mais de 5 mil pessoas. Fui um dos convidados da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, em 2004. Nos dois eventos, pus a garganta para funcionar. Quando estou escrevendo, gosto de ficar trancado. Mas quando o livro sai, fico livre. Quero conhecer cada leitor, trocar idéias e parafusos, entende? Essa coisa de escritor viver no Olimpo eu não concordo. O limpo, digo sempre, é sujo, sujo.

O sr. gosta de escritores da chamada literatura de deslocamento como Charles Bukowski e John Fante?
Eu nunca fui de ler muito o Bukowski, o John Fante. Tinha uma preguiça danada, entende? Comecei lendo o Graciliano, o Rosa, o João Cabral. Tudo que era em uma outra língua eu deixava para depois. Mas li Jean Genet, Virginia Woolf, Henry Miller, etc. Meu primeiro estrangeiro, na verdade, foi o argentino Julio Cortázar. Até hoje leio e releio o Cortázar. Mas olhe: não faz muito tempo que li o Pergunte ao Pó, do Fante. E gostei deveras. Li, idem, só há pouco, O Apanhador no Campo de Centeio, de Salinger. Porém, não sei, sempre volto para os autores brasileiros e portugueses. Como o paulista Campos de Carvalho e o português Virgílio Ferreira - por esse último sou verdadeiramente obcecado. Há um livro dele chamado Alegria Breve que é um fantástico!

Os minicontos podem ser vistos como uma concessão saudável dos escritores aos leitores que querem tudo rápido?
Os mini e microcontos são um excelente exercício de síntese, de economia, de enxugamento. Já dizia o Drummond: “Escrever é cortar palavras”. Gosto dessa coisa rápida, desse vexame. Quando organizei, em 2004, a antologia “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século” e convidei 100 escritores para escreverem contos de até 50 letras (falei "letras" e não "palavras", hein?), pensei na diversão, no desafio. Vários toparam e foi uma festa. Estavam lá desde autores inéditos até consagrados como a Lygia Fagundes Telles, Dalton Trevisan, Millôr Fernandes. Todos indiretamente homenageando o escritor guatemalteco Augusto Monterosso, que escreveu o microconto mais famoso do mundo, que diz: "Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá". São 37 letrinhas só. Para que mais, não é?

'Quem faz pensando em vender, não faz literatura'

Eduardo Horácio - O seu texto é bem conciso, enxuto. É uma virtude, caminho sem volta ou apenas estilo?
Marcelino Freire - Eu sou um escritor sem fôlego. Escritor de fôlego curto. Não gosto de me demorar. Escrevo e saio de perto. Eu tenho muito essa perseguição, essa exigência com cada palavra, cada ponto, cada vírgula. Aprendi isso lendo o Graciliano Ramos. A secura da linguagem dele. Aprendi isso com as poesias do João Cabral. Substantivas, entende? Atualmente, estou na feitura de um romance. Não sei se consigo terminá-lo. Fico aperreado quando escrevo mais de três páginas. O romance está caminhando, mas não sei se terei oxigênio, se gostarei do resultado. Vamos ver. Enquanto escrever contos, serão sempre assim: no osso. Por enquanto, é meu único caminho, sim. Meu estilo nervoso, sei lá.

O humor do seu texto é algo estrategicamente bem pensado ou sai naturalmente ao contar histórias?
Sai naturalmente. Nada é estratégico. Eu vou me divertindo enquanto escrevo. Descobrindo os ganchos, os personagens. Vou num vôo cego, gosto disso. Sou pernambucano, como você bem sabe. E o pernambucano é bem-humorado por natureza. Põe comédia na tragédia e vice-versa. Os temas dos meus contos são pesados. São duros demais. Se não fosse o humor, se não fosse essa graça na desgraça, eu não conseguiria escrever. Eu preciso desse riso nervoso. Desse riso amarelado que seja.

Para mim, Contos Negreiros ainda será considerado pela crítica um marco forte da literatura brasileira. Foge da narrativa clássica. Estou exagerando?
Eu agradeço as suas palavras, mas não sei bem. Isso é o tempo que vai dizer. O jogo literário que vai dizer. Circunstâncias várias, enfim. O que sei é que desde o Angu de Sangue, meu primeiro livro de contos saído em 2000 pela editora Ateliê, eu sempre fiz o livro que quis fazer. Desde a capa, de tudo. A editora Record, por exemplo, acatou todas as minhas sugestões e interferências. O resultado saiu bem legal. Gosto muito do Contos Negreiros. Gosto muito desses avessos que crio. De ver e escrever por outros ângulos. De subverter, sei lá. Se é para o escritor escrever a mesma coisa, que vá redigir manual de eletrodomésticos, entende? E olha: há muito escritor preocupado com a posteridade. Nunca cansam de me perguntar: "Dessa geração, quem ficará?". Pergunta idiota. O que sei é que todo mundo vai ficar, sim, debaixo do chão um dia. E só. Mais uma vez agradeço as suas palavras. O que sei é que me inspirei em clássicos para fazer o Contos Negreiros. Queria muito fazer um livro "abolicionista" em pleno começo de novo milênio. Para isso, fui e reli Castro Alves, Jorge de Lima, Cruz e Sousa. Fui iluminado por eles, entende?

Já vi o sr. dizendo que não faz literatura para vender. Mas, ainda assim, a polêmica crítica da revista Veja, publicada em julho, contribuiu para aumentar a venda dos seus livros, apesar de negativa?
Ninguém faz literatura pensando em vender. Porque se fizer pensando em vender, não é literatura. Há pouco me perguntaram por que nos meus livros nunca há gente bem-sucedida. E eu estou lá preocupado com gente bem-sucedida? Gente bem-sucedida não tem lugar na minha literatura. Não escrevo livros empresariais. Não sou autor de auto-ajuda. Não vendo felicidade, enfim. Mas olhe: o livro tem ido bem, amém. Por ser um livro de um autor contemporâneo, tem ido muito bem. Em três meses, já foi vendida metade da edição, que é de 4 mil exemplares. Pouco, se comparado a um Paulo Coelho. Muito, pela literatura sem concessão que eu faço. Quanto à revista Veja, para mim foi uma beleza. Recebi muitos e-mails de leitores que diziam assim: "Fui atrás dos seus livros só porque a Veja falou mal". A Veja está sem moral. Sistematicamente tem atacado a nova literatura brasileira. Isso porque o seu redator-chefe, Mário Sabino, é escritor e se incomoda com a gente. A Veja quer apagar, mas não consegue, o vigor desse momento literário. A Veja não enxerga, coitada!

Qual será o conteúdo de seu próximo livro, Gonza-H?
Pois é: Gonza-H é o título provisório daquele romance que estou escrevendo. Não sei se terei fôlego, como falei. É a história de um adolescente demoníaco. Ótimo filho, ótimo aluno, ótimo neto, mas demoníaco. Capaz das piores safadezas. É um ninfeto sem afeto, um ninfeto da lotação. O pai dele é escritor. Ele odeia o pai dele e as coisas que o pai escreve. O livro está dividido em duas partes. O personagem quando criança/adolescente e o personagem quando velho, rabugento... Também estou curtindo escrever o que estou chamando de Ensaios de Improviso. Pode render um bom livro. Não sei. Coisa nova, minha, só para o ano de 2007. Não tenho saúde para um livro todo ano. Farei e participarei de vários projetos, mas livro autoral eu faço só de dois em dois anos, por aí. 

Há quem diga que o ministro Gilberto Gil tem descentralizado as (poucas) verbas do Ministério da Cultura. Que o eixo Rio-S.Paulo já é menos hegemônico. O sr. concorda?
O Gil, há pouco tempo, falou isso em entrevista. Criticado por Paulo Autran, ele disse que o Ministério não estava mesmo interessado nos "Consagrados". Que os pequenos grupos de teatro estavam sendo beneficiados, os grupos de dança... Espero que sim. Eu não tenho informações que comprovem, mas gosto deste pensamento, desta preocupação. Por exemplo: o movimento do qual faço parte, o Movimento Literatura Urgente (a briga da Revista Veja comigo começou por causa desse movimento), conseguiu ser ouvido pelo Ministério, via o Galeno Amorim. Fazemos parte da Câmara Setorial do Livro. É um bom começo, uma vez que o escritor nunca foi ouvido quando o assunto é criação de leis para o livro. Vamos ver no que isso vai dar. O diálogo pelo menos começou.

A opção por viver em São Paulo é questão de sobrevivência ou gosto pessoal?
Nunca foi gosto pessoal nem questão de sobrevivência. Nunca pensei em vir morar em São Paulo, até o dia em que um amigo meu me convidou. Eu disse: "vou". Estou aqui desde 1991. Nunca gostei muito de sol, de areia, de contemplação praieira. Sem contar que sou muito preguiçoso e precisava de uma cidade que me acordasse. Sempre digo que São Paulo não é uma cidade que amanhece, é uma cidade que acorda. Nesse sentido, foi muito importante a minha vinda para cá. A cidade me sacudiu. Posso dizer que não conseguirei viver mais em outro lugar. São Paulo me intoxicou, me deixou doente. Não há mais cura. Continuar aqui, agora sim, é uma questão de sobrevivência. Gosto pessoal ainda não é. É que eu não tenho mais escolha. Lascou tudo.


 

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