Luiz Eduardo Jorge: ‘Querem apagar a memória’

Na entrevista a seguir, o cineasta Luiz Eduardo Jorge explica a origem de seu curta sobre o Césio 137, as resistências iniciais, as surpresas que teve e a vontade de não deixar a memória se apagar, "como muitos querem”. Explica também seu engajamento cinematográfico. “É um princípio de vida”, diz.

por Eduardo Horácio


Luiz Eduardo Jorge recebe prêmio no Fica de 2003  Foto: Divulgação

Luiz Eduardo Jorge, autor do curta sobre o Césio 137, denuncia tentativa de acabar com a memória do acidente radioativo. Promete resistir e, para tanto, prepara um longa de ficção sobre o assunto

O cinema ainda vai ganhar um novo longa-metragem sobre o Césio 137. Quem promete é o cineasta Luiz Eduardo Jorge, autor do documentário Césio 137 - O Brilho da Morte. Ele pretende fazer um longa-metragem de ficção - e não mais um documentário - porque tudo o que é relativo ao Césio 137 ''foi demolido, destruído e virou lixo radioativo''. Enquanto ainda articula as bases de seu longa, Luiz Eduardo segue debatendo e exibindo seu curta, já premiado como melhor produção goiana no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica) de 2003.

Luiz falou com com este blogueiro (em abril de 2004) sobre seu filme, as razões para fazê-lo, a memória que guarda da época e planos futuros. Não foge da polêmica. Fala, por exemplo, da morte do cineasta Roberto Pires. Segundo ele, também vítima do Césio. "Não tem outra explicação. Ele pegou um câncer de garganta semelhante ao câncer que muitas pessoas na França contraíram quando a nuvem do acidente de Chernobyl passou pelo território francês”, diz.

Eduardo Horácio - Por que a opção de tentar fazer um longa-metragem de ficção sobre o Césio 137 e, no curta-metragem, ter feito um documentário?
Luiz Eduardo Jorge -
O longa-metragem será uma ficção porque tudo o que é relativo ao Césio 137 foi demolido, destruído e virou lixo radioativo. Vou fazer uma reconstrução desse cenário, uma reconstrução de personagens e crônicas, crônicas do poder, crônicas das pessoas que foram vítimas, a relação do poder, com a ciência, com a sociedade. A começar pelo número de vítimas do acidente radioativo. É difícil de estimar um número correto. A última estimativa que foi feita, que é do conhecimento do Ministério Público, coloca um dado de 3.200 pessoas. A lista de pessoas contaminadas pelo Césio não é apenas aquela das pessoas diretamente ligadas ao acidente. Há pessoas que não tiveram contato com o Césio 137, mas que foram contaminadas também. De algum modo, receberam radiação.

O que levou o sr. a entrar nesse assunto e, depois, acabar fazendo um curta-metragem?
Em 2000 eu estava no Festival de Brasília apresentando meu curta Passageiros da Segunda Classe. Eu conheci a Laura Pires, acompanhada da Lúcia Rocha (mãe do Glauber Rocha) no dia da apresentação do meu filme. Isso explica tudo. O marido dela, o cineasta Roberto Pires, foi o montador do nosso filme e morreu em junho de 2001. Eu encontrei a Laura em novembro daquele mesmo 2001. Roberto Pires, vale lembrar, foi o diretor de Césio 137 - O Pesadelo de Goiânia.

Ele morreu em decorrência de um câncer de garganta...
Sim. Foi crise de garganta.

No curta Césio 137 - O Brilho da Morte o sr. diz que Roberto Pires foi uma vítima anônima do Césio 137, que ele teria se contaminado nas filmagens que ele realizou em Goiânia na época do acidente. Esse fato está comprovado?
Roberto Pires nunca teve problema nenhum de saúde. Depois que filmou Césio 137 - O Pesadelo de Goiânia, tendo contato com as vítimas, morando no Setor Aeroporto na casa da Santana, levando o Devair Alves Ferreira para Brasília etc e tal. Na época em que filmou o Césio 137, fazendo a pesquisa com o Walter Carvalho, ele chegou a entrar no depósito radioativo de Abadia.

O que o sr. diz chega a ser assustador. Como ele entrou no depósito radioativo, local que, em princípio, deveria estar bem protegido?
Eu não sei como ele entrou, mas entrou e filmou o depósito todo enferrujado, os latões todos com problema, e estas imagens estão lá no Rio de Janeiro. São imagens que eu vou utilizar no futuro longa-metragem que pretendo fazer. Então o Roberto Pires também é vítima do Césio. Não tem outra explicação. Ele pegou um câncer de garganta semelhante ao câncer que muitas pessoas na França contraíram quando a nuvem do acidente de Chernobyl passou pelo território francês. Não pode ser só uma coincidência. Ninguém fez uma pesquisa no Roberto para saber se aquele câncer foi contraído pelo acidente radioativo em Goiânia. A medicina falou que o Ivo Alves Ferreira (pai de Leide das Neves e irmão de Devair Alves), morreu com problema de insuficiência respiratória. Dizem que na Madalena Pereira Gonçalves foi espinha de peixe. Se estas pessoas receberam altas doses de radiação e foram se debilitando ao longo da vida, aí a pessoa morre por engasgar com uma espinha de peixe ou por uma insuficiência respiratória?

Não houve um acompanhamento das vítimas do acidente radioativo...
O governo brasileiro deveria ter o interesse de acompanhar as vítimas desse acidente. É um absurdo. A negligência não é só de ter deixado a peça lá para as pessoas levarem, ela continua. O governo simplesmente se ausenta da responsabilidade.

Voltando ao filme: o simples contato com a Laura foi suficiente para despertar a vontade de fazer o curta sobre o Césio?
Eu não queria, inicialmente, fazer absolutamente nada. Eu disse pra Laura: já tem gente fazendo em Goiânia. Mas o problema nem era esse. Eu acabei fazendo esse vídeo porque documentei toda a minha pesquisa. São coisas absolutamente diferentes, são abordagens, são intenções diferentes, são conseqüências políticas diferentes. Eu fui aceitar uma proposta da Laura Pires muito depois. A gente se entendeu muito bem, avançamos, gravamos com várias pessoas, fiz uma pesquisa grande, levantei todas a referência bibliográfica, e hoje meu projeto de pesquisa está pronto e se chama Silêncio Azul. A minha pesquisa é uma pesquisa gravada e faço questão de gravar porque já recupero a memória. Eu sou um documentarista e não faria diferente.

O seu curta-metragem é fortemente engajado. Esse engajamento é um princípio de vida seu ou é uma conseqüência em função do assunto tratado?
É um princípio de vida. É uma formação intelectual e humana que eu tive. Nasci um pouco antes da ditadura militar, vivi essa ditadura militar durante vinte anos. Sou formado em História pela Universidade Católica, depois fiz mestrado e doutorado na USP, fui para a França e também trabalhei num lugar muito interessante, tive acesso ao Instituto Mediterrâneo de Pesquisa e Criação. A minha proposta de trabalhar com o cinema militante vem de um compromisso político mesmo. Quero ser verdadeiro, eu trabalho com o cinema-verdade.

Em 1987, em setembro, no dia em que o acidente do Césio se tornou público, o sr. estava aonde?
Em Goiânia, no Setor Sul, onde eu morava.

Na época o sr. chegou a pesquisar alguma coisa?
Em 1987 eu era fotógrafo de uma agência chamada Agil Fotojornalismo. Era uma agência nacional e fui escalado pra fazer a documentação fotojornalística aqui de Goiânia, na época do acidente. Eu estive lá no Estádio Olímpico.

Só para contextualizar: o Estádio Olímpico foi o local onde as pessoas foram monitoradas, correto?
Sim. Eu tive uma experiência muito difícil lá no Estádio Olímpico. Toda pessoa que fotografava, antes de ir embora, passava pelo monitoramento — de vez em quando, eu tinha de deixar algum objeto. Uma vez na fila, bem na minha frente, tinha uma senhora, e quando os técnicos mediram-na descobriu-se que ela estava altamente contaminada. Depois descobri que era a Santana. Fotografei tudo durante três meses, depois disso eu não quis mais fotografar. Parei com tudo e fui para São Paulo no final de 1987 fazer o meu mestrado. Na época, quando eu cheguei em um hotel em Campinas (SP), o lugar disse que não tinha vaga depois de ver minha identidade, só porque eu era de Goiânia. E muitas pessoas de Goiânia foram discriminadas no Brasil e até fora do Brasil. Bastava dizer que era de Goiânia e pronto.

Algumas das fotos que o sr. tirou circularam nacionalmente...
No final daquela semana em que fiz fotos no Estádio Olímpico, saiu na Istoé Senhor uma matéria com o título “Goiânia Nunca Mais”. E tinha uma foto minha que era das cotas dessa senhora e, dentro do bolso dela, tinha um bilhete da Loteria do Estado de Goiás com data, local e tudo mais. Essa se espalhou pelo mundo. Mas é uma foto científica, uma foto de uma pessoa contaminada, emblemática, de estudo. O problema é que a matéria foi muito tendenciosa. “Goiânia Nunca Mais”? Não fui eu que escrevi a matéria mas fiquei muito chocado com relação a isso, acho que a minha imagem não foi respeitada e por isso eu não quis mais saber.

Isso foi decisivo para o sr. a parar com o fotojornalismo?
Foi. Porque o fotojornalismo é muito rápido e, dependendo como você utiliza a imagem no texto, se ideologiza, cria-se um certo desconforto social muito grande. Esta matéria me criou um desconforto social muito grande. A imagem não foi utilizada com boa intenção.

Que outras lembranças o sr. guarda do Estádio Olímpico naquela época?
Os banhos de vassourões, os bombeiros, os isolamentos em hospitais. As vítimas com quadro clínico muito agravado foram transferidas para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro. Teve gente que ficou lá por doze horas numa redoma de vidro, com os físicos e os médicos chegando e olhando. Essas pessoas foram tratadas como pesquisa, como cobaia, como aqueles que vão morrer, tratados com dúvida, com isolamento e com discriminação. O campo de concentração deles foi justamente o HGG, a Febem, esses locais assim, o Marcílio Dias no Rio. Não estou preocupado em narrar a história em si. Não quero a história em si. A história que me interessa é a história da crônica do poder, a crônica dos acidentados. O que me interessa são as cartas que foram escritas pelas pessoas, sabendo que estas cartas se transformaram em peças radioativas. Tudo isso eu quero rememorar. Com quem? Com as pessoas que receberam cartas, que escreveram cartas, com as que falaram ao telefone, que viveram no Marcílio Dias, que viveram na Febem, no HGG, estou remontando tudo isso. A minha busca é o movimento desses meses que se seguiram ao acidente.

Como seu contato com as vítimas foi feito para a realização do curta-metragem? Houve resistência?
Os contatos foram feitos com pessoas já conhecidas. A gente saía de casa, ligava, fazia uma produção, contatava com as pessoas, visitava, ia na casa delas. A Laura Pires já era conhecida de todos eles. Então eu não tive problema de contato com as pessoas, até porque elas querem falar sobre isso. Elas querem fazer disso uma tribuna de discussões. Elas querem discutir o problema. E meu papel, como documentarista, é possibilitar essa discussão. O curta rememora esses 15 anos. E traz dados estatísticos, dados fundamentais da ciência, dados colhidos pela ciência. Então não há uma pessoa que não quisesse falar.

O sr. tentou em seu documentário ouvir pessoas da Secretaria de Saúde de Goiás e da Cnen?
Tentei, tentei, mas não consegui falar com ninguém. Eu gostaria, por exemplo, de falar com os médicos do Hospital do Câncer, com os médicos que eram responsáveis pela clínica lá na Paranaíba com a Araguaia, a Santa Casa. Uma coisa é um vídeo, um vídeo que foi uma crônica dos acidentados, e outra coisa é a minha pesquisa maior. Eu quero falar com as pessoas, eu preciso falar com elas. Os médicos que estão lá no Araújo Jorge, as pessoas que estão aí anônimas, as que estão sendo reveladas agora. Eu gostaria muito de conversar com a família Santillo. Eu estive com a Carla Santillo, deixei um projeto, convidei-a para entrar no projeto, eu gostaria de saber o que o pai dela pensava. Porque eu tenho um personagem que é o governador para meu longa-metragem (Antônio Abujamra deve interpretar Henrique Santillo, possivelmente).

Então o sr. encontrou resistências por parte do poder público para fazer o curta-metragem?
Teve resistência.

O sr. insinua que o fato de o Centro de Convenções de Goiânia ter sido construído no local  onde aconteceu tudo exemplifica bem a forma como o poder público tratou a questão do Césio 137, não insinua?
A frase do filme caracteriza isso. No local dos escombros... é curioso. Tinha os escombros de uma Santa Casa, uma peça de radioterapia contendo 19 gramas de Césio 137. Quando essa peça é levada, logo depois o governo que sucedeu Santillo fez um suntuoso Centro de Convenções. No Centro de Convenções não se levantou nenhuma placa. Ali, no mínimo, o governo deveria levantar uma placa e contar a história de Goiânia. A gente comemora o aniversário de Goiânia, uma cidade maravilhosa, generosa, com qualidade de vida, tirando as exclusões, mas a memória não pode ser deixada. A perda da memória significa perda de identidade. Deveria se dizer: aqui foi onde começou um acidente radioativo, que é real. Esta cidade teve um acidente radioativo. Isso não significa que o governo teria prejuízos com isso, ao contrário, isso é uma forma de revisitação da memória, isso é uma forma de um reconhecimento de um acidente histórico para a cidade e para o mundo. É como se apagassem a memória. Querem apagar a memória. Como se isso não tivesse importância.


 

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