Capote vence pela precisão

O filme Capote não muda a história do cinema, mas consegue ser preciso. Tem ótimos atores, direção detalhista, reconstituição dos fatos quase obssessiva e uma atmosfera tão real que faz o filme, por vezes, parecer um documentário.

por Eduardo Horácio


  Foto: divulgação

O filme Capote não muda a história do cinema, mas consegue ser preciso. Tem ótimos atores, direção detalhista, reconstituição dos fatos quase obssessiva e uma atmosfera tão real que faz o filme, por vezes, parecer um documentário.

Em poucas palavras, Capote conta seis anos da vida do jornalista e escritor Truman Capote, de 1959 a 1965, época em que ele mudou a literatura e o jornalismo ao unir os dois gêneros no que viria a ser conhecido como "novo jornalismo". O marco desta mudança é o livro A Sangue Frio, que reconta o assassinato de quatro pessoas de uma familia no Kansas (EUA) em 1959. O processo angustiante de feitura de A Sangue Frio (e os métodos do escritor) são o tema deste ótimo filme.

A narrativa é clássica e convencional. O olhar narrativo se posiciona do lado de Capote, mas não deixa de mostrar suas crises egocêntricas, suas mentiras e seus erros. Os momentos mais tensos no filme são aqueles em que Capote encontra o assassino Perry e tem com ele uma relação ambígua: não se sabe se Capote ajuda Perry ou se ajuda a si mesmo.

Outro mérito do diretor Bennett Miller foi saber focar que a trajetória de produção de Capote era quase sempre marcada por uma autodestruição pessoal. Capote praticamente não tinha inimigos nem oposição, ninguém que topasse enfrentá-lo (nem na profissão, nem fora dela). Capote era inimigo de si mesmo. Se o egocentrismo de Capote o levava às alturas, ele também acabava por jogar o escritor no chão em momentos decisivos. O auge dessa característica, levada às últimas conseqüências, ocorre quando Capote passa a torcer para Perry ser enforcado o mais rápido possível. O filme mostra também que Capote, além de ótimo escritor-jornalista, era um socialite e um precursor do show-man.

O ator Philip Seymour Hoffman's, por sua metamorfose, deveria receber o Oscar de melhor ator por pelo menos cinco anos consecutivos, tamanha a qualidade de seu trabalho. Hoffman conseguiu passar longe de dois perigos que corria ao interpretar Truman Capote: ser impessoal ou caricatural. O personagem foi, na medida certa, ambíguo, egoísta e manipulador.

Capote era ambíguo, egoísta e manipulador, certo? Sim, mas, sinceramente, acho inócuo o debate agora ressuscitado sobre os métodos que Capote usava para fazer jornalismo. É óbvio que há muito a ser questionado. E há métodos até condenáveis, mas o jornalismo naquela época era mesmo marcado por métodos, digamos, heterodoxos. Nascesse hoje, Capote provavelmente não teria sido Capote. Assim como, no Brasil, Samuel Wainer e David Nasser jamais seriam o que foram. Brilharam em uma época em que a exigência de ética por parte do leitor e do mercado era "frouxa". 


 

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