Manderlay: idealismo vira cinismo

Como era natural, Manderlay não tem o impacto de Dogville, por ter sido feito no mesmo esquema narrativo. Mas satisfaz quem espera um filme livre de melodramas. Há algumas mudanças significativas entre os dois filmes. O narrador em Dogville mais narrava e explicava do que comentava. Agora, o inverso.

por Eduardo Horácio


  Foto: divulgação

Como era natural, Manderlay não tem o impacto de Dogville, por ter sido feito no mesmo esquema narrativo. Mas satisfaz quem espera um filme livre de melodramas. Há algumas mudanças significativas entre os dois filmes. O narrador em Dogville mais narrava e explicava do que comentava. Agora, o inverso. A história é sobre uma cidade-fazenda, chamada Manderlay (localizada no Alabama), em que uma população negra ainda é escrava mesmo 70 anos após a alforria. Cheia de boas intenções no discurso, a branquíssima e rica Grace aparece para implementar os ideais de capitalismo, com forte ênfase nos conceitos de liberdade e democracia.

Se o primeiro filme (Dogville) não dizia de cara que fazia uma crítica aos Estados Unidos (o que levou muita gente a dizer que se tratava de uma crítica contra a natureza humana), nesta continuação Lars Von Trier abre claramente a idéia de que é um filme sobre a sociedade estadunidense e sua formação. O epílogo fotográfico (ao som de Young Americans, de David Bowie) é o ponto de exclamação que fecha o filme.

Bryce Dallas Howard não fica devendo nada a Nicole Kidman. A protagonista sabe fazer melhor o papel de mulher fria, com um discurso bonito que funciona no piloto automático, do que Kidman. Por vezes, imagina-se até que algumas das frases que saem da boca de Grace foram retiradas integralmente de discursos de George W. Bush, Condoleezza Rice ou mesmo Bill Clinton.

O diretor dinamarquês Lars Von Trier (que continua se orgulhando de nunca ter pisado nos EUA) consegue boas vitórias com Manderlay: constrói bem a idéia de que boas intenções às vezes não servem para nada. Também mostra como a idéia de hipocrisia virou um ideal de nação nos Estados Unidos. É perfeita a forma como o cineasta monta o processo de transformação de uma pessoa idealista em cínica e apática, o que explica um pouco o que é os Estados Unidos e suas colônias culturais de hoje.

Essa transformação de Grace de idealista em cínica é o ponto central do filme: "quebra" a identificação do público com qualquer uma das partes. Impossível o público se identificar com uma pessoa cínica. Igualmente impossível é se identificar com o outro lado da história, o apático povo de Manderlay.


 

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