Voto cínico contribui para degeneração da política

Eleitor que vota com base na vantagem pessoal - e não no interesse público - desvirtua a noção de República e de ética. É o ponto: construímos, no Brasil, uma noção particular de ética. Ser ético - pelo menos na política - virou sinônimo de não roubar. A fórmula é simples: se não rouba, é ético. A simplicidade, neste caso, faz tão mal a um debate ético quanto a própria corrupção.

por Eduardo Horácio


  Quadro de Edward Munch

Poucos debates políticos pelo mundo são tão contaminados pelo discurso ético quanto o brasileiro. Por aqui, adoramos falar do assunto. Teve até um partido - hoje na Presidência da República - que atalhou sua chegada ao poder colocando como carro-chefe o discurso de ética, decência e honestidade.

É assunto favorito do brasileiro discutir ética. Mas não é qualquer ética. Temos, no Brasil, uma noção particular do assunto. Ser ético na política virou sinônimo de não roubar. A fórmula é simples: se não rouba, é ético. A simplicidade, neste caso, faz tão mal a um debate ético quanto a própria corrupção.

A ética, da forma como é colocada hoje no debate político, faz tão mal à política que seria melhor se ela, ética, estivesse ausente do discurso. O filósofo Renato Janine Ribeiro, no texto Ser ético, ser herói diz que o serviço do profissional que gaba sua honestidade costuma ser tão ruim quanto o dos outros, ou mesmo pior.

Pobre de um político que precisa se gabar eticamente. Afinal, ser ético, na política, deveria ser um pré-requisito: logo, não deveria nem ser motivo de debate.

Se do lado do político o debate é torto, do lado do eleitor não é diferente. O eleitor brasileiro tem por hábito se mostrar indignado: bate no peito e ataca todos os políticos. Por vezes, sobe o tom e xinga as instituições.

Só que na estratificação sócio-econômica, da classe mais alta até a mais baixa, o eleitor não tão é diferente do político que tanto critica. O ideal republicano - essencial para a boa política e para a ética na política - fala em colocar o interesse público acima do interessa particular. Nos dois extremos sociais, quem age assim?

Quase 117 anos depois, a República ainda não está implantada no Brasil. Ninguém condena quem é anti-republicano. Como o eleitor brasileiro costuma escolher, por exemplo, seu candidato a deputado estadual e federal? Geralmente com base nos interesses pessoais, particulares. Raramente o eleitor leva o interesse público em conta na hora de votar.

Nas classes mais baixas, o eleitor vende o voto em troca de dinheiro, cestas básicas, remédios e outras mercadorias. Outras vezes, vota no deputado que trouxe obras para a região dele. Ou naquele que o ajuda a furar a fila do hospital em busca de uma consulta ou cirurgia. Nas classes média e alta, o eleitor tem o hábito de votar no deputado que vai lhe dar algum emprego, manter o cargo do amigo ou mesmo conseguir "quebrar" uma multa de trânsito para ele. Algum dos dois tipos de voto é republicano?

Não é uma heresia suprema, portanto, dizer que o Congresso Nacional é um retrato da sociedade brasileira. Ou que a Assembléia Legislativa é uma foto três por quatro dos goianos. Os deputados - assim como seus eleitores - são muito enfáticos quando falam de ética. Mas ambos desapertam o cinto em momentos de "teste ético", caso por exemplo de uma campanha eleitoral. É prática haver um leilão entre políticos para saber quem mais trouxe obras, via emendas orçamentárias, para determinada região. O político - que de republicano não tem nada - sabe que isso funciona exatamente porque o eleitor é tão mercantilista quanto ele.

À medida em que valoriza mais o candidato-despachante (que traz mais recursos para sua região), o eleitor contribui para o próprio esvaziamento da política. A campanha eleitoral fria de 2006 tem relação direta com a falta de paixão do cidadão pela eleição. A racionalidade faz bem para a política, mas não a que se viu este ano. É difícil ver hoje algum eleitor defender seu candidato espontaneamente - sem ser cabo eleitoral, por exemplo. Predomina a racionalidade cínica, a pior das racionalidades.

Quando o eleitor começa a dizer que o político corrupto que se assume corrupto é melhor do que o corrupto que nega, muita coisa está indo de mal a pior. O eleitor está sendo cínico. O cinismo é por excelência o campo da degeneração da política. A confusão entre falta de vergonha e transparência se estabelece. Uma é confundida com a outra. Não deveria ser assim.

Se de um lado há um eleitor cínico, do outro lado há um eleitor ressentido, postura tão maléfica quanto. O cínico diz que a política não presta, que o eleitor não presta, mas a política é isso mesmo. A idéia de que "não é possível fazer política sem colocar a mão na lama", como outro dia disse um ator, resume bem o pensamento cínico aplicado à política.

Já o ressentido é o eleitor que se acha puro, honesto e ético. E que se mantém longe de tudo - inclusive da política - para tentar manter essa auto-imagem. A culpa, para o ressentido, é sempre do outro, que o atrapalhou (aqui no caso este "outro" é o político). Esse tipo de eleitor acaba fazendo mal para a democracia tanto quanto o cínico. É apenas a outra faceta do problema.

Quando o eleitor nega a política - por ressentimento ou cinismo - ele indiretamente nega a si mesmo. E a política piora. O eleitor joga bastante suspeição sobre o político e esquece de aplicar a mesma avaliação moral sobre si mesmo.


 

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