A atualidade de O Poderoso Chefão

Um filme é clássico, entre outros motivos, porque nunca envelhece por completo. Caso, por exemplo, das três partes de O Poderoso Chefão. A trilogia dirigida pelo cineasta Francis Ford Coppola segue tão ou mais atual do que na época em que teve início nos cinemas, em 1972. O romance fictício de Mario Puzo - especialmente o primeiro, o melhor deles - segue também bastante atual, principalmente por trazer detalhes que fogem da alçada do cinema.

por Eduardo Horácio


  Foto: Divulgação

Trilogia de Coppola sobre máfia italiana segue moderna e útil para o cinema e para a política de hoje

Um filme é clássico, entre outros motivos, porque nunca envelhece por completo. Caso, por exemplo, das três partes de O Poderoso Chefão. A trilogia dirigida pelo cineasta Francis Ford Coppola segue tão ou mais atual do que na época em que teve início nos cinemas, em 1972. O romance fictício de Mario Puzo - especialmente o primeiro, o melhor deles - segue também bastante atual, principalmente por trazer detalhes que fogem da alçada do cinema.

Para quem nunca leu o livro ou viu o filme, O Poderoso Chefão conta a história da famíla Corleone, liderada pelo mafioso Vito Corleone. O "Corleone" que faz o papel de sobrenome é uma homenagem á cidade homônima, que fica na ilha de Sicília (Sul da Itália). Vito Corleone, como os demais mafiosos do local, é conhecido na Itália por "padrinho" (que vem a ser Godfather, em inglês, justamente o título original do filme), termo que tenta minimizar a truculência do chefe da máfia.
Visto aos olhos de hoje, o primeiro filme pode parecer uma sucessão de clichês. Não é. A parte 1 de O Poderoso Chefão é que inventou o clichê de filme de máfia, tanto quanto Hitchcock consagrou o clichê do filme de suspense com Psicose. Não é pouco. Ao lado de Apocalypse Now (1979), é a película que eternizou o nome de Coppola no hall dos grandes cineastas.

Na agilidade certa, com cortes precisos, o filme se revela moderno ainda hoje na estética cinematográfica. A caracterização dos personagens é perfeita. Fosse um pouco torta, a interpretação e a voz de Marlon Brando usada no filme seria caricatural mas, em vez disso, não teve reparos. As três horas de filme passam na mesma velocidade de um estalar de dedos, o que prova ser possível fazer um filme não-cansativo (aos olhos do grande público) sem linguagem de videoclipe.

Não é só esteticamente que O Poderoso Chefão sobrevive como obra clássica. É na ambientação de relações de poder que o filme se encorpa, a ponto de ser referência para muitos que abraçam a política, principalmente a que coloca o fim na frente dos meios. E as relações de poder independem de o grupo ser mafioso ou não: a luta tende a ser igual com ou sem máfia.

O início do primeiro filme da trilogia começa com a festa do casamento da filha de Vito Corleone (Marlon Brando), o que não impede o pai da noiva de usar o momento para articulações políticas e receber, um a um, homens que o respeitam mas, sobretudo, o temem. As conversas entre Corleone e as pessoas que adentram sua sala não são muito diferentes daquelas que políticos mantém com muitos de seus aliados. A diferença, na maioria dos casos, é que os políticos em questão não são mafiosos (ou pelo menos não são no sentido tradicional do termo).

Um dos diálogos é memorável. Corleone diz com ar de professor que, quem tem poder, tem de usá-lo em toda sua extensão, sob risco de sair do jogo mais cedo se hesitar. Nada muito diferente do que alguns manuais de política usam hoje, inspirados no livro de Maquiavel (O Príncipe) que é fonte primária de qualquer estudo sobre poder. E nada muito diferente do que acontece na prática. É comum, em alguns locais, políticos usarem o poder que têm para censurar jornalistas, ameaçar inimigos e aliados e reprimir movimentos sociais.

Como no já citado casamento da filha de Corleone, festas na máfia são sempre dirigidas a multidões. Multidão é sinônimo de poder, tem força simbólica. E as festas são palcos ideais para manifestações de lealdadades ao padrinho. A lealdade mafiosa, no entanto, é tão peculiar quanto a de muitos políticos não-mafiosos: se baseia no negócio. A lealdade de um mafioso é a mesma de um negociante. O lema é: nunca se atrele a ninguém a ponto de nunca poder traí-lo. A traição é a porta de saída.

Sem qualquer tentativa de ilação, é curioso notar a ética dos mafiosos. Integrantes da máfia, em O Poderoso Chefão, valorizam muito o conceito de lealdade e a instituição família. A valorização da família não impede, obviamente, que estes mesmos mafiosos usem, eventualmente, protistutas como estoque sexual. Para eles, amar a família e freqüentar bordéis podem ser duas opções harmoniosas na vida de um homem. E mesmo a valorização da família implica sempre em fazer, da mulher, um "objeto" de submissão.

Há ainda outros conceitos fortes. Um deles é herança militar: a hierarquia. Desrespeitá-la costuma ser sinal de morte. Tal como a família, a religião também acompanha a máfia. Da mesma forma que comprou a imprensa, a máfia sempre teve suas raízes também na religião. Em O Poderoso Chefão, o catolicismo é marca forte no caráter de vários personagens. O que não impede de esse mesmo católico matar qualquer inocente que apareça, desde que a morte seja útil aos interesses do chefe Vito Corleone.

No terceiro filme da trilogia, a principal lição vem do novo capo, Michael Corleone (filho de Vito, interpretado por Al Pacino). Ele diz que “quanto mais legalizado, mais corrupto o negócio se torna”, quando se discute se a família Corleone deveria ou não passar a operar no narcotráfico. Vito, o pai de Michael, sempre foi contra, a ponto de quase ser assassinado pela família Sollozzo, favorável ao comércio de drogas.

Há momentos de O Poderoso Chefão que parecem proféticos. Em um deles, no segundo dos três filmes, há um trecho em que Michael Corleone, sendo interrogado, diz “repelir” toda e qualquer acusação a ele dirigida. Em outro momento, quando julgado para saber se ia preso ou não, o mesmo personagem se defende com uma frase bastante atual: “eu não sabia de nada. Quem fazia o serviço eram os intermediários, sem que eu soubesse”.

Também no segundo filme há um momento, próximo da metade, em que a Polícia procura os culpados pelo assassinato de um importante homem. As testemunhas são, uma a uma, encontradas mortas, em efeito dominó.

Outra questão importante – talvez a mais de todas – que pode ser verificada no fim do primeiro dos três filmes, é a maneira como se dá a sucessão de Vito Corleone que, adoentado, fica impossibilitado de administrar o poder. Contrariando a expectativa que Sonny Corleone (James Caan), Tom Hagen (Robert Duvall) e Fredo Corleone (John Cazale) assumam o controle da família, já que os três estiveram sempre engajados na causa do pai, quem acaba ascendendo é Michael Corleone (Al Pacino), justamente o único "civil" dos filhos de Vito. Durante todo o primeiro filme, Michael chega a mostrar vergonha de sua família. Prefere ficar longe de tudo. Ao fim, no entanto, é quem toma o poder e passa a exercê-lo de forma até mais truculenta do que seu pai.

O exemplo ilustra como, também na política, quem às vezes ganha uma briga é justamente quem nela não se envolveu e, portanto, se preservou para o momento certo. Fosse uma disputa política por um ministério, por exemplo, Michael Corleone teria conquistado a vaga justamente por ter sido um outsider. Na tentativa de ganhar apoio de quem não se tem, muitas vezes se oferece mais aos recém-convertidos do que aos tradicionais e fiéis aliados.


 

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