Onda retrô: o retorno do recalcado

A onda retrô está aí. Bandas covers de Raul Seixas, Elvis Presley, a volta de Gloria Gaynor, Chris Hynde, Mutantes e até a badalação de U2 e Rolling Stones como maiores bandas do mundo só faz comprovar que, hoje, o setor artístico e cultural passa por alguma crise. No cinema, é cada vez maior a quantidade de refilmagens. Na literatura, os clássicos vendem cada vez mais - a ponto de o poeta Gabriel Nascente, em entrevista publicada aqui neste blog, dizer que seus principais concorrentes são os mortos - e, no teatro, é Shakespeare e companhia que ainda reinam. Há alguma coisa de errada no reino da Dinamarca?

por Eduardo Horácio


  Foto: divulgação

A onda retrô está aí: no bar, nos shows, no cinema e na casinha de sapê. Bandas covers de Raul Seixas, Elvis Presley, a volta de Gloria Gaynor, Chris Hynde, Mutantes e até a badalação de U2 e Rolling Stones como maiores bandas do mundo só faz comprovar que, hoje, o setor artístico e cultural passa por alguma crise. No cinema, é cada vez maior a quantidade de refilmagens. Na literatura, os clássicos vendem cada vez mais - a ponto de o poeta Gabriel Nascente, em entrevista publicada aqui neste blog, dizer que seus principais concorrentes são os mortos - e, no teatro, é Shakespeare e companhia que ainda reinam. Há alguma coisa de errada no reino da Dinamarca?

Provavelmente sim. O lado bom é a certa dose de tradição, resgate do passado, uma referência para ser bebida. Mas o mais provável é que, hoje, essa retrospectiva sem fim exista em função de uma generalizada crise de criatividade. Sem muitas opções novas, recorre-se ao que deu certo. Poucas vezes o cinema - americano ou não - produziu tão poucas obras de qualidade quanto agora. Qualidade combinada com inovação, então, é raridade ainda maior. Os grandes cineastas de hoje são, muitas vezes, os mesmos dos anos 60, 70 e 80, estejam eles em atividade ou não.

No teatro, raramente se produziu tão pouco. E, do que se produz, nada é novidade. Fora as peças que sustentam bilheteria por terem atores globais, a maioria é obra revista. Grandes autores do passado continuam revisitados à exaustão. Nas artes plásticas, a era urinol pós-Duchamp ainda prevalece, com a banalização da arte em si e também do próprio conceito de arte.

Os clássicos não saem das prateleiras quando o assunto é literatura. É o que explica, inclusive, o crescimento de venda dos livros de não-ficção. E no setor musical? A música eletrônica ainda segue como boa novidade, principalmente por ter saído do gueto e se popularizado. Mas, paradoxalmente, a mesma música eletrônica costuma apontar para o antigo. A bossa nova, por exemplo, é pano de fundo de muitas novas produções. Neste caso, além de retrô, há oportunismo: a bossa nova é amplamente conhecida no exterior, o que faz com que muitos DJs a adotem como forma de alcançarem alguns quinze segundos de fama internacional. Na MPB, quem desponta é Maria Rita, com visual, musicalidade e letras bem retrô.

Mas não é difícil imaginar que a criatividade é fraca porque há um público resistente ao novo. Poucas vezes se viu uma juventude tão conservadora - no sentido de conservar o passado - quanto a de hoje. Jovens fazem filas para ver bandas covers e sucessos de antigamente, como U2 ou Ira!, mas fecham os olhos e ouvidos para bandas de garagem. Em Goiânia, por exemplo, o público de rock alternativo poderia ser maior do que já é, não fosse a adesão automática de muitos ao mainstream.
Ou seja: embora haja crise de criatividade, o pouco que há de novidade com qualidade é negado pelo grande público.

Há, por trás dessa crítica ao novo, muitas vezes o papo de que sumiu a qualidade que orientava as gerações passadas. Mas, se a evolução do gosto musical dos jovens, em geral, fosse semelhante à evolução comportamental, este texto nem existiria. Na área comportamental, jovens já não cultuam valores e princípios só porque são tradicionais. A contextualização, aliada a princípios próprios, hoje é mais forte do que a tradição. Seria bom se olhos e ouvidos também fossem mais abertos ao que é novo na arte e na cultura.

Muitas vezes, recorrer ao "velho" é só uma forma de se esconder do "novo". O cinema que aponta inovações de linguagem é desprezado. Claro que o extremo oposto também é perigoso. O novo também não pode ser melhor só pelo fato de ser novo.

Festas temáticas hoje têm como referência datas, em vez de assuntos. É mais comum ouvir falar de uma festa "estilo anos 80" do que uma "festa fantasia", por exemplo. Esse exemplo, aliás, é bem sintomático. Quando uma época passa a idolatrar décadas que nem tão boas foram - como os anos 80 -, é que algo está mesmo dando errado. O passado não deve ser abandonado: se for para falar em tipo ideal, o melhor é que ele conviva bem com o presente. E que, definitivamente, slogans como "não li e não gostei" sobre a literatura de hoje cheguem ao fim.


 

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