Os Sonhadores: política, sexo e cinefilia

Onde termina a política e começa o sexo? Onde acaba o sexo e aparece o cinema? Investindo em beleza estética, Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, une assuntos que o cinema sempre insistiu em separar

por Eduardo Horácio


Filme de Bertolucci recusa maniqueísmos  Foto: divulgação

Onde termina a política e começa o sexo? Onde acaba o sexo e aparece o cinema?

Perguntas como essas não são literais no cinema de Bernardo Bertolucci. Respostas, menos ainda. Mas podem surgir na cabeça de quem se propõe a ver, sem pudores, Os Sonhadores, o mais recente filme do cineasta italiano que esteve em cartaz nos cinemas em 2004 e 2005 e, agora, está nas locadoras.

Quem conhece, atesta. O cinema de Bernardo Bertolucci é único: basta uma cena, um detalhe ou um recorte para enxergarmos que ali há uma estética própria, que não prejudica enredo nem tem o propósito de fazer o público se sentir menor. Mesmo falando de datas e épocas, seu cinema nunca é derrotado por elas.

Outro desembaraço de Bertolucci está na arte de conciliar política e arte no cinema. Nunca foi problema. Ao contrário: falar de ambos simultaneamente sempre foi necessidade. "Uma forma de organizar o caos”, para usar a frase que ele mais gosta de repetir. Essa “organização”, entretanto, é simbólica. Bertolucci rejeita certezas e idolatra dúvidas.

O seu jeito de fazer cinema é cuidadoso. Pouca coisa está inserida na tela acidentalmente. Não há o mau gosto hollywoodiano em telas e cartazes pendurados nas paredes. Os personagens, mesmo nos momentos mais fúteis, sempre surpreendem com discussões produtivas. A música é um trabalho à parte. Em vez convencionalismos, reforçando as passagens mais dramáticas, a trilha é inserida para ser ouvida como elemento autônomo.

Os Sonhadores mais uma vez reforça a tese de que poucos cineastas no mundo - no Brasil, talvez só Júlio Bressane e Luiz Fernando Carvalho – filmam tão bem o encontro entre poesia e cinema. Em uma época fascinada pelos extremos, esse casamento proposto por Bertolucci pode não passar de um ponto de partida. Mas não custa nada celebrar.

 

A descoberta do mundo em 68

Bastante lúdico, cheio de citações sem ser pernóstico, Bertolucci faz em Os Sonhadores pequenos diagnósticos do maio de 68 parisiense sem prejudicar a fluência do filme. Coloca o princípio da dúvida acima do da crença. E sugere uma resposta cheia de reticências ao final.

Os Sonhadores se passa em 1968 em Paris, ano da rebelião estudantil que ainda é pauta nos dias de hoje. O filme começa mostrando o protesto de estudantes contra a demissão de Henri Langlois (criador da Cinemateca Francesa) pelo ministro da cultura André Malraux (demissão que conta com o aval do presidente Charles De Gaulle). É no meio do protesto da cinemateca que os dois irmãos gêmeos franceses Isabelle (Eva Green) e Théo (Louis Garrel) conhecem o americano Matthew (Michael Pitt), que havia chegado a Paris para estudar por um ano.

Os gêmeos, ali mesmo, convidam Matthew para jantar. Depois o convencem para que ele fique uma temporada na casa deles. Matthew topa. O que se passa dentro do apartamento, então, é um mundo paralelo (embora jamais desconexo) da rebelião que acontece nas ruas.

A França, neste momento, vive intensa união entre política e cinema. Um ano antes o cinema-militante de Jean-Luc Godard chegava ao auge com A Chinesa, filme que de alguma forma profetizou a rebelião de 68 e que inspirou Os Sonhadores.

Citações
A ação psicológica de alguns autores e mitos é explicitada com as mil citações do filme. Outras influências, como Lacan, Barthes, Levi-Strauss e Sartre, são facilmente identificadas pelo modelo de educação liberal dos pais dos franceses (a cena do cheque deixado pelo pai simboliza bem esse modelo).

Dentro do apartamento, o mundo dos três jovens é marcado por brincadeiras cinéfilas com doses de erotismo. Percebe-se uma descoberta do mundo, ou pelo menos de um tipo específico de mundo. A forma como os jovens, especialmente os dois franceses, tratam política, sexo e cinema revela um deslumbramento típico de quem é iniciante nesses assuntos.

Um processo de autoconhecimento sublinha praticamente todo o filme. O limite da liberdade sexual é testado o tempo todo, com desejos incestuosos, inveja, culpa e outras fantasias pautando a mente dos três personagens. Muito interessante notar o papel do americano Matthew. É ele que vai propor uma ruptura conservadora em tudo ali. Ele alimenta uma quebra entre cinema e política, prega menos filosofia, critica o maoísmo mas, em alguns momentos, se deixa levar pelo desejo dos irmãos franceses.

Mas não é só Matthew que se contradiz. Pelo contrário. É justamente o fato de todos os personagens do filme sucumbirem em algum momento que faz com que a construção deles seja bem feita. No melhor estilo Bertolucci de fazer cinema, não há maniqueísmos.

Não há julgamento moral. Mesmo Matthew, que assume o papel de símbolo da interdição do incesto, não é apresentado como alguém revestido de autoridade suficiente para tanto. Ele tenta fazer com que os dois irmãos franceses ingressem na sexualidade aceita pela cultura: renunciar ao círculo familiar para, um dia, virem a formar outra família. Mas o filme não esconde as verdadeiras razões que motivam Matthew.

O que interessa é que o diretor propõe uma nova abordagem do maio de 68. Não só enfatizando a revolução de costumes, que foi acelerada naquele mês-evento. Problemas da revolução política que quase aconteceu também são expostos. O sangue no rosto de Isabelle é talvez o momento que melhor exemplifica essa recusa de Bertolucci em dissociar política e comportamento.

É por isso que é irritante ver críticos do filme dizerem que Os Sonhadores não tem nada de político. Há quem embarque em um reducionismo moralista tão grande que só consegue falar das cenas de sexo do filme. O DVD de lançamento do filme nos Estados Unidos trouxe na capa a expressão "thriller erótico". Uma bobagem.

Apesar de político, Bertolucci tem os pés no chão. Conversa com 1968 sem se esquecer de que o filme será visto por telespectadores de 2004 e 2005. Complementa A Chinesa, sim, mas não perde a noção histórica de que é um filme que analisa 1968 em retrospectiva. Nesse ponto cresce a importância de Matthew. É dele a tarefa de não deixar que Os Sonhadores vire um filme-panfleto. Bertolucci usa o personagem americano para lembrar os revolucionários sobreviventes de hoje que colocar o maio de 68 no pedestal romântico só atrasa ainda mais a revolução que eles esperam (se é que algum dia acontecerá). Metáforas à parte, até neste ponto Matthew funciona como princípio fundador da cultura.

É Matthew também o elemento-chave para estabelecer uma crítica mútua e bem humorada entre europeus e americanos. Isso fica claro na cena do café da manhã, quando Matthew interrompe o excesso de filosofia do pai (escritor francês) para partir para um outro excesso: de futilidades. Também é válido notar que, para os três jovens, o cinema é levado a sério e, a política, é um hobby.

O diretor italiano nos expõe um conflito político amplo. Maio de 68 teria formado uma geração criadora de valores ou mera reprodutora deles?Assim como o incesto, é esse um dos debates interditados dos anos 60 que, agora, Bertolucci retoma.

 

Bertolucci brinca com Godard

Cheio de homenagens ao cinema, Bertolucci usa A Chinesa e outros filmes de Godard em diversos momentos como parâmetro para sua obra. Enquanto Bertolucci analisa 1968 em 2004, Godard foi falar da mesma época em 1967, um ano antes. E era A Chinesa o filme preferido de dez entre dez militantes políticos parisienses em maio de 68. Para relembrar: em A Chinesa cinco jovens decidem se enfurnar em um apartamento (muito parecido com o de Os Sonhadores) para aprender a "implantar" a revolução socialista na França (o maoísmo é o símbolo político mais presente nos filmes de Bertolucci e Godard; e, no quarto de Theo, em Os Sonhadores, há um cartaz imenso de A Chinesa).

Outro exemplo de homenagem de Bertolucci: a seqüência em que os três protagonistas do filme repetem a corrida de Anna Karina, Sami Frey e Claude Brasseur pelo Louvre é uma homenagem plástica a Bande à Part (filme de 1964 nunca exibido no Brasil mas que será lançado em breve em DVD), do mesmo Godard. Mas o fundador da Nouvelle Vague influencia até certo ponto, já que Bertolucci não arrisca conjugar seu filme na gramática estruturalista de Godard.

A forma como os personagens se relacionam no apartamento é também uma referência (ou uma continuidade) de Bertolucci a seus próprios filmes. Elementos de O último tango em Paris, 1900 e Antes da Revolução são revisitados em Os Sonhadores. Em 1964, no filme Antes da Revolução, o segundo de sua carreira, Bertolucci conta detalhes da paixão incestuosa entre um jovem marxista e sua tia.

A seqüência final deste filme, assim como em Os Sonhadores, é marcada por otimismo e grandiosidade e, neste ponto, a ópera inserida no filme de 1964 ou, agora, Non, Je Ne Regrette Rien, de Edith Piaf, cumprem bem o papel.

Pena que a letra de não é traduzida em legendas na película no cinema e nem no DVD do filme.

Aqui vai a tradução, que ajuda a dar um sentido mais adequado ao final do filme:

Edith Piaf - Je Ne Regrette Rien (tradução)

 

Não! Eu não lamento nada 

Não! Nada de nada...
Não! Eu não lamento nada...
Nem o bem que me fizeram
Nem o mal - isso tudo me é bem igual!

Não, nada de nada...
Não! Eu não lamento nada...
Está pago, varrido, esquecido
Não me importa o passado! 

Com minhas lembranças
Acendi o fogo 
Minhas mágoas, meus prazeres
Não preciso mais deles!

Varridos os amores
E todos os seus "tremolos" 
Varridos para sempre 
Recomeço do zero.

Não! Nada de nada...
Não! Não lamento nada...!
Nem o bem que me fizeram
Nem o mal, isso tudo me é bem igual!

Não! Nada de nada...
Não! Não lamento nada...
Pois, minha vida, minhas alegrias
Hoje começam com você!

Trilha Sonora

A música ganha força própria em Os Sonhadores. Em vez de usada de forma pobre, reforçando as passagens mais dramáticas, a trilha é inserida para ser ouvida como elemento autônomo ou para dar um novo sentido às cenas. Confira algumas das canções presentes na película.

Third Stone From The Sun - Jimi Hendrix

Hey Joe - Jimi Hendrix

The Spy - The Doors

I Need a Man to Love - Janis Joplin

Queen Jane Approximately - Bob Dylan

La Mer - Charles Trenet

Tous les Garçons et les Filles - Francoise Hardy

Non, Je Ne Regrette Rien - Edith Piaf

 

Trechos do filme

"A primeira vez em que vi um filme na Cinemateca Francesa, pensei que só os franceses podiam ter um cinema num palácio. Eu tinha 20 anos de idade. Era final dos anos 60. Tinha ido para Paris por um ano para estudar francês. Aonde aprendi de verdade. Me tornei um membro de uma espécie de maçonaria. A maçonaria dos cinéfilos. É como chamávamos os "fanáticos por cinema". Eu era um dos insaciáveis. Dos que sempre ficavam nas primeiras filas. Porque nos sentávamos tão perto? Provavelmente porque queríamos ser os primeiros a ver as imagens, quando elas estavam ainda novas, frescas, antes que saltassem para as cercas das filas seguintes. Queríamos ver antes de se espalharem de fila em fila, de espectador em espectador, até que se esgotassem, em segunda mão, do tamanho de um selo, voltando para a cabine do projetista"

"Provavelmente a tela de projeção não fosse nada além de uma tela de projeção... que nos protegia do resto do mundo. Mas houve uma tarde na primavera de 1968, quando o mundo finalmente atravessou a tela de projeção"

"A diferença entre Keaton e Chaplin é a diferença entre prosa e poesia, entre a aristocracia e o vagabundo, entre a excentricidade e o misticismo. Entre o homem como máquina e o homem como anjo"

"Existem soldados no Vietnã guerreando agora. Quem eles estão escutando? Clapton? Não, eles estão escutando Hendrix. O cara que diz a verdade"

"- Um cineasta é como um olheiro, um voyeur. É como se a câmara fosse a fechadura do quarto de seus pais. E você os espiaria. E você se sente culpado, mas não consegue parar de olhar.

- Não posso mais ser um cineasta porque meus pais sempre deixavam a porta do quarto aberta"

"Quando eu olhei para a tela da TV, me lembrei da batalha da Cinemateca. Mas desta vez os manifestantes não eram fãs de filme. Era difícil saber o que estava acontecendo, mas as lojas tinham fechado suas portas, e as fábricas fizeram greve e começava a se espalhar por toda parte em Paris"

"A revolução não é um jantar de gala. Não pode ser feita como uma obra literária, um desenho ou um bordado. Não se consegue com a mesma elegância, calma e delicadeza. Nem com a mesma suavidade, amizade, cortesia, moderação e generosidade. A revolução é uma insurreição, um ato de violência no qual uma classe invalida a outra"

 

Serviço

Os Sonhadores
Título Original: The Dreamers
Duração: 125 minutos
Direção: Bernardo Bertolucci
Roteiro: Gilbert Adair (baseado em livro homônimo)
Produção: Jeremy Thomas
Fotografia: Fabio Cianchetti
Elenco: Michael Pitt (Matthew), Louis Garrel (Theo) e Eva Green (Isabelle)


 

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