17/06/09 - Quarta-feira
Jornalismo
Fim da obrigatoriedade não é fim do mundo
O Supremo Tribunal Federal (STF) acaba de decidir, por 8 votos a 1, que o diploma de jornalismo não é mais obrigatório para o exercício do jornalismo. Particularmente, sempre estive do lado daqueles que defendem a obrigatoriedade. Não porque considero a técnica jornalística uma coisa dificílima de aprender (ao contrário), mas por entender que uma faculdade específica em jornalismo ajuda a criar um maior compromisso entre o profissional e os princípios que regem a atividade.
No entanto, o fim da obrigatoriedade do diploma em jornalismo para o exercício da atividade não é o fim do mundo. Mesmo que a decisão do STF fosse pela manutenção da obrigatoriedade do diploma, ainda assim pouca coisa mudaria. É preciso, especialmente nesse momento, entender alguns fatos.
O principal talvez seja desfazer um equívoco comum: uma coisa é ser contra o diploma de jornalista, outra coisa distinta é ser contra a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão. Na publicidade, por exemplo, o canudo nunca foi obrigatório para o exercício da profissão e, ainda assim, as agências de publicidade preferem contratar, quase sempre, profissionais diplomados na área. Ou seja: o diploma não é obrigatório, mas o mercado recomenda que você tenha um.
Listo, abaixo, aspectos que devem ser considerados ao se discutir o fim da obrigatoriedade do diploma na área:
1) Com ou sem a decisão do STF, o diploma em jornalismo não é mais obrigatório - Com a internet, qualquer um pode fazer jornalismo, mesmo que não seja formado em nada. E como a tendência é que jornais, TVs e rádios migrem totalmente para a web, mais cedo ou mais tarde não haveria mais como regular quem é jornalista e quem não é. A internet não tem como ser regulada - mesmo que alguém crie uma lei proibindo a prática do jornalismo por não-diplomados no Brasil, o sujeito pode abrir um site com um domínio fora do país (o que é fácil e barato), em lugares onde não existe a obrigatoriedade do diploma.
2) O Brasil é um dos poucos que ainda exigia a obrigatoriedade - Dos mais de 200 países do mundo, apenas nove (quase todos da América do Sul) exigem o diploma de jornalismo para o exercício da profissão. Na Itália, no México, no Japão ou nos Estados Unidos, por exemplo, não existe essa exigência. E nem por isso o diploma em jornalismo é desvalorizado.
3) As faculdades de jornalismo não vão acabar - Se uma faculdade de jornalismo existe apenas porque o diploma em jornalismo é obrigatório, algo há de errado. Em países em que o diploma não é obrigatório, as faculdades de jornalismo continuam crescendo em tamanho e quantidade de alunos. Por quê? Porque o mercado (com raras e conhecidas exceções) prefere um profissional com uma formação na área do que pegar outro que é cru no metié. Repito: no Brasil, não há obrigatoriedade da exigência do diploma para ser publicitário e as faculdades de publicidade só crescem - em quantidades de alunos, inclusive.
4) Quem contratava gente com formação na área vai continuar contratando - Com uma ou outra exceção, a tendência é que os veículos que sempre contrataram gente com diploma continuem contratando quem tem diploma - e os que desobedeciam a lei, vão continuar desobedecendo. Até porque a desobediência à lei do diploma obrigatório nunca gerou multas nem outras penas - e mesmo quando gerou, foram só pequenas multas, irrisórias para qualquer veículo de comunicação.
5) Não deve haver invasão de profissionais de outra área no jornalismo - Primeiro porque um editor sempre vai preferir contratar repórteres com diploma na área (é melhor do que ter de ensinar o be-a-bá para todos). Há apadrinhados? Sempre houve e sempre haverá, ou estou errado? Quando um dono de jornal quer que alguém entre no seu veículo, ele faz qualquer coisa, com ou sem diploma - coloca o cara para ser jornalista e registra ele como digitador, por exemplo.
Por último, uma provocação: o maior culpado pelo fim da obrigatoriedade do diploma em jornalismo não é o STF, não são os grandes veículos, não é o capitalismo. Para mim, sempre foi a categoria. Sim, nós e nossos coleguinhas. Sempre defendemos a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão, mas não conheço ninguém que jogue mais pedras em sua própria formação do que o jornalista. Se (quase) todo jornalista gosta de dizer que a faculdade valeu pouco e que se aprende mesmo é no mercado, porque o STF seria a favor da obrigatoriedade do diploma? Os argumentos do STF para explicar o fim da obrigatoriedade do diploma foram esdrúxulos, mas as nossas ações para manter a exigência da formação específica não foram muito diferentes.
Jornalista que sai por aí dizendo que, agora com a decisão do STF, seu diploma "não vale nada”, que os quatro anos de faculdade foram jogados no lixo, que jornalista com diploma é “otário”, etc. só acaba reforçando, ainda mais, a decisão do STF. Portanto, choremos menos.
Postado por Eduardo Horácio em17/06/09 às 23:08.
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